Moeda alemã de 1748 é encontrada no município de Amapá

Achado às margens do Lago Bom Nome pode ajudar a desvendar antigas rotas de navegação e ocupação do território amapaense
Compartilhamentos

Por RODRIGO ÍNDIO, de Macapá (AP)

Uma caminhada no meio da mata, a umidade característica do interior do estado e um sinal sonoro agudo disparado por um detector de metais. Foi assim que o engenheiro agrônomo Mailon Gomes Vilhena resgatou da terra um pedaço esquecido do passado da Amazônia: uma moeda alemã cunhada em 1748, cravada a poucos metros do Lago Bom Nome, na zona rural do município de Amapá.

O achado ocorreu no dia 10 de maio de 2025, mas detalhado agora ao portal SelesNafes.com. Ao limpar a camada de terra compactada que cobria o objeto metálico, Mailon percebeu as incisões numismáticas do século 18. Após pesquisas detalhadas para identificar a procedência da peça, veio a confirmação das inscrições e da data histórica: a moeda trazia a gravação Pfen III, referência ao Pfennig utilizado por Estados germânicos à época da colonização das Américas.

Peça foi encontrada durante uma busca com detector de metais…

…na zona rural do município de Amapá. Fotos: arquivo pessoal

Rotas de navegação e a tese de um entreposto no Lago Bom Nome

Como um artefato germânico de quase 300 anos foi parar às margens de uma lagoa no interior amapaense? A resposta pode estar na dinâmica dos rios e no trânsito de embarcações internacionais que exploravam a costa e os igarapés da região entre os séculos 17 e 18.

Mailon, que pratica o detectorismo como hobby há quatro anos com o auxílio de um aparelho Minelab Vanquish 440, argumenta que a geografia do local mudou com o passar do tempo.

“Creio que ali passava um grande rio e que naquelas matas se fazia exploração de madeira, pois já encontrei materiais usados na construção e no reparo de barcos. Pode ter funcionado sim como um entreposto de passagem, onde embarcações de diferentes países paravam para fazer manutenções”, analisa o engenheiro.

Colagem com a imagem da moeda em boas condições encontrada na internet e que também ajudou a comprovar que é alemã

Ele reforça que, além de artefatos metálicos, a região costuma apresentar fragmentos de outros materiais antigos, o que demonstra a sobreposição de diferentes fases de ocupação humana no mesmo território.

Preservação, acervo local e os desafios da memória

A preservação do patrimônio histórico resgatado do solo amapaense é um tema central nas discussões entre pesquisadores e praticantes de detectorismo. Embora pretenda dialogar com historiadores sobre a peça, Mailon optou por manter a moeda sob sua guarda temporária enquanto cobra iniciativas de valorização da memória no próprio município.

“A minha vontade era que a prefeitura de Amapá tivesse um mini museu para incentivar a população a expor achados históricos localmente, servindo para desvendar o passado da própria cidade. O envio automático de relíquias para outros estados desfalca a nossa própria história”, defende.

Inscrição identifica moeda como um Pfennig usado em Estados germânicos no século 18

Engenheiro Mailon Gomes Vilhena defende a criação de um pequeno museu para preservar a história local

Ética no campo e novos horizontes

O detectorismo é uma atividade que exige cuidados para não ferir o meio ambiente nem adulterar sítios arqueológicos tombados. Praticantes que seguem protocolos de conduta costumam recolher lixo metálico descartado na natureza, tapar as escavações feitas no solo e respeitar delimitações legais.

Mailon planeja retornar à região do Lago Bom Nome para novas varreduras e acredita que a terra do Amapá guarda muito mais do que os livros didáticos registram.

“A história do Amapá não é um livro fechado. Trata-se de uma das fronteiras mais misteriosas da América do Sul, palco de rotas secretas e disputas territoriais. Achados como essa moeda de 1748 provam que a resposta do nosso passado ainda está gravada no chão”, conclui.

Compartilhamentos
Insira suas palavras de pesquisa e pressione Enter.
erro: Conteúdo Protegido!!