Por PEDRO PESSOA, de Belém (PA)
Uma delegada da Polícia Civil do Pará foi presa nesta quinta-feira (15), suspeita de receber R$ 50 mil para repassar informações confidenciais e oferecer proteção a integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), uma das maiores organizações criminosas do país. A investigada é Maria Virgínia Grimwood Pinto, que foi localizada em um hotel no Setor Hoteleiro Norte, em Brasília, no Distrito Federal. A prisão ocorreu durante uma investigação conduzida pela Polícia Civil de Pernambuco, que apura a participação de agentes públicos em um esquema criminoso envolvendo tráfico de drogas, corrupção e lavagem de dinheiro.
Além da delegada, os policiais prenderam Renato Henrique do Carmo, conhecido como “Gordão”, apontado como uma das lideranças do PCC em Pernambuco. Ele foi encontrado em um resort de luxo em Porto de Galinhas, um dos destinos turísticos mais conhecidos do Nordeste.
Delegada teria relacionamento com líder do PCC
Um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores foi a relação pessoal entre a delegada e o suspeito de integrar a organização criminosa. Segundo a investigação, Maria Virgínia mantinha um relacionamento amoroso com Renato Henrique, apontado como liderança da facção na região de Muro Alto, no município de Ipojuca, em Pernambuco. A suspeita é de que a delegada tenha utilizado a posição que ocupava na Polícia Civil do Pará para beneficiar integrantes do grupo criminoso.

Suspeito apontado como liderança da facção foi localizado em um resort de luxo em Porto de Galinhas. Fotos: reprodução
Em troca de vantagens financeiras, ela teria fornecido informações sobre investigações policiais, permitido acesso a dados restritos dos sistemas de segurança pública e oferecido proteção institucional aos investigados. O valor de R$ 50 mil aparece nas investigações como possível pagamento pelos serviços prestados à organização criminosa.
Conversas em celular ajudaram a identificar suspeitas
A ligação entre a delegada e o suposto integrante do PCC começou a ser investigada após uma operação policial realizada em janeiro de 2025. Na ocasião, Renato Henrique foi preso durante a Operação Sinalagma, mas posteriormente acabou colocado em liberdade. O aparelho celular dele foi apreendido e passou por uma análise autorizada pela Justiça.
Durante a investigação do conteúdo, os policiais encontraram conversas que ajudaram a identificar possíveis colaboradores da organização criminosa e levantaram suspeitas sobre a atuação da delegada paraense. As informações obtidas também contribuíram para o aprofundamento das investigações sobre a participação de agentes públicos no esquema.
Esquema movimentou mais de R$ 14 milhões
A operação que resultou nas prisões faz parte de uma investigação mais ampla sobre uma organização criminosa suspeita de atuar no tráfico interestadual de drogas e na lavagem de dinheiro. De acordo com a Polícia Civil de Pernambuco, o grupo investigado teria movimentado mais de R$ 14 milhões por meio de operações financeiras suspeitas.
Para dificultar a identificação da origem dos recursos, os envolvidos teriam utilizado empresas legalmente registradas, documentos falsificados e contas bancárias em nome de terceiros.

Segundo a investigação, delegada mantinha relacionamento amoroso com suspeito apontado como uma das lideranças do PCC em Pernambuco
Os investigadores também identificaram movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada de alguns suspeitos. O trabalho contou com a análise de informações bancárias, dados de inteligência e relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão responsável por identificar operações suspeitas de lavagem de dinheiro no Brasil.
Suspeitas de corrupção e violação de sigilo
A participação da delegada no esquema ainda está sendo investigada. Entre os possíveis crimes relacionados à atuação da policial estão corrupção passiva, violação de sigilo funcional e colaboração com organização criminosa. A investigação busca esclarecer se informações obtidas por meio da estrutura da segurança pública foram utilizadas para facilitar as atividades da facção ou dificultar a atuação das autoridades.
A Operação Sinalagma recebeu esse nome em referência à troca de obrigações entre duas partes, numa alusão ao suposto pagamento de vantagens financeiras em troca de informações e proteção. As investigações continuam para identificar outros possíveis envolvidos no esquema criminoso.
